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Torneio Internacional de Ginástica Artística 2002
 
 
 
 

DEVIA SER PROIBIDO!

Por Marcelo Miyashiro - Staff Ginásticas.com

Uma viagem de São Paulo a Curitiba de ônibus leva mais ou menos 6 horas, o que pode ser bem desagradável, ainda mais contando os enjôos, desconfortos, e pneus furados (!) que vêm de brinde com a passagem...

Sendo assim, por que um paulista encararia uma viagem de ida e volta de São Paulo a Curitiba, num intervalo de menos de 24 horas?

Bem...  não é todo dia, nem em qualquer lugar que a gente pode ver ginastas americanas, ucranianas e brasileiras de alto nível competindo entre si, não é mesmo? Pois é. E foi isso mesmo o que aconteceu no último final de semana (28 e 29 de setembro), no Torneio Internacional de Ginástica Olímpica, no Clube Curitibano.

Devo admitir, no entanto, que aquilo que de fato me entusiasmou não foi tanto a presença estrangeira no torneio, mas muito mais a de uma ginasta brasileira: a “minha idolatrada-salve-salve”, Daiane dos Santos.

Tornei-me fã desta ginasta desde a primeira vez que a vi, numa transmissão dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999. Achei-a incrível, nunca havia visto uma rotina de solo executada com tanta energia, de maneira tão empolgante.

Penso que atualmente é extremamente predominante uma ginástica somente em prol de resultados e títulos, com séries de grau de dificuldade cada vez mais elevado, e o lado artístico (falo de arte mesmo) da ginástica cada vez mais esquecido; rotinas que parecem simplesmente um conjunto de movimentos decorados, executados um atrás do outro, é algo que ocorre de maneira geral com as ginastas atuais... em outras palavras: as ginastas atuais executam muito e sentem pouco.

Neste sentido, pude ver na Daiane um grande diferencial, frente à “mesmice” atual da ginástica. Ela é capaz de executar séries de altíssima dificuldade e, ainda é capaz de associar a isso muita energia, muita alegria, muita garra, muito amor. Vê-la em ação no solo é fantástico; em movimentos que muitas das melhores ginastas têm grande dificuldade para executar (como o duplo-mortal estendido, ou a tripla-pirueta) a Daiane se sobressai: executa com grande velocidade, e aterriza de maneira que chegam a parecer fáceis (?!) todas as suas evoluções pelo ar.

A oportunidade de ver a Daiane ao vivo era mesmo imperdível, de maneira que não hesitei em dar um jeito de ir a Curitiba, junto com a (recém-formada) equipe do Ginásticas.com.  Chegamos cedo ao local da competição e, logo de cara, nos deparamos com ginastas americanas e ucranianas se aquecendo nos aparelhos.

Foi realmente impressionante. Nunca houvera acompanhado, não tão de perto, um evento com atletas de tão alto nível. Durante o aquecimento, já era possível observar toda a qualidade daquelas ginastas: possuíam uma flexibilidade fora do comum, se contorciam de todas as maneiras possíveis sem aparentar nenhum esforço; demonstravam força e resistência, fazendo séries e séries de exercícios extremamente difíceis, como se estivessem num dia de treino normal, não como se a competição fosse ocorrer em 15 ou 20 minutos. Às portas da arena, observando tudo isso, três caras de queixo no chão quase se esquecem que tinham que tirar fotos, fazer filmagens e tentar conseguir entrevistas com técnicos e ginastas. Éramos nós mesmos!

Logo em seguida, a seleção brasileira, que até então não havia chegado, entrou pela porta do clube, e as ginastas se dirigiram ao local de aquecimento, passando próximas a nós. Não pude acreditar ao ver a Daiane entre elas; dentro de minutos, iria mesmo poder vê-la de perto, aquecendo-se, competindo, e (quem sabe?) ganhando!!!

Então, fomos até a arquibancada e escolhemos o melhor lugar possível para acompanhar a movimentação. Filmamos e tiramos algumas fotos durante o aquecimento, enquanto o público chegava, e a competição logo começou.

As expectativas foram confirmadas; as ginastas eram mesmo muito boas e vimos ótimas rotinas em todos os aparelhos, assim como algumas boas quedas, que a televisão não gosta muito de mostrar. Estava ansioso por finalmente ver a Daiane ao vivo no solo, onde ela normalmente faz as suas melhores apresentações e acaba conquistando todo o público.

Afinal, chegou a vez dela. Vibrei só de imaginar como seria, torcia para que ela fosse tão empolgante, tão viva quanto nos vídeos que costumo ver e rever das suas apresentações desde Winnipeg. A música da série de solo tem sido sempre a mesma desde 1999, mas as seqüências de tumbling (as seqüências de saltos executadas nas diagonais) tem evoluído desde então, estão cada vez melhores.

Mas, infelizmente, certas coisas não são pra ser mesmo...

Aquele não foi um bom dia para a Daiane. Não tinha ido bem no salto sobre o cavalo e, no solo, logo de início, na sua primeira seqüência de tumbling, que pena... a Daiane acabou tendo problemas e aterrisou para fora do solo, o que acabou com as suas chances de vitória. Ainda assim, não desisti: queria acreditar que ela ainda poderia vencer e vibrei e torci apaixonadamente até o fim da música.

Apesar deste final aparentemente triste, não me senti mal pelo fato de ela não ter vencido; pelo contrário, me sentia gratificado por tê-la visto tão de perto, voando daquele jeito pelo ar. Ela é mesmo diferente; me transmitiu uma alegria tão boa que a vitória passou a ser, simplesmente, um mero detalhe.

Li, em algum lugar, um comentário sobre o jogador de futebol Garrincha, na época em que ele era chamado de “a Alegria do Povo”. Dizia assim: “Devia ser proibido jogar tão bonito”.

Deste comentário, tiro a minha impressão final sobre ver a Daiane ao vivo:

Devia ser proibido pular tão bonito.

Imagens Fotográficas:

:Por Denis R. Patrocinio e Nelson Antoine - Staff Ginásticas.com

         

         

         

         

         

         

         

         

         

          

         

         

 
 
     
   
 
 
 
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