|
DEVIA
SER PROIBIDO!
Por
Marcelo Miyashiro - Staff Ginásticas.com
Uma
viagem de São Paulo a Curitiba de ônibus leva mais ou menos 6 horas, o
que pode ser bem desagradável, ainda mais contando os enjôos,
desconfortos, e pneus furados (!) que vêm de brinde com a passagem...
Sendo
assim, por que um paulista encararia uma viagem de ida
e volta de São Paulo a Curitiba, num intervalo de menos de 24 horas?
Bem...
não é todo dia, nem em qualquer lugar que a gente pode ver
ginastas americanas, ucranianas e brasileiras de alto nível competindo
entre si, não é mesmo? Pois é. E foi isso mesmo o que aconteceu no último
final de semana (28 e 29 de setembro), no Torneio Internacional de Ginástica
Olímpica, no Clube Curitibano.
Devo
admitir, no entanto, que aquilo que de fato me entusiasmou não foi tanto
a presença estrangeira no torneio, mas muito mais a de uma ginasta
brasileira: a “minha idolatrada-salve-salve”, Daiane
dos Santos.
Tornei-me
fã desta ginasta desde a primeira vez que a vi, numa transmissão dos
Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, em 1999. Achei-a incrível, nunca havia
visto uma rotina de solo executada com tanta energia, de maneira tão
empolgante.
Penso
que atualmente é extremamente predominante uma ginástica somente em prol
de resultados e títulos, com séries de grau de dificuldade cada vez mais
elevado, e o lado artístico
(falo de arte mesmo) da
ginástica cada vez mais esquecido; rotinas
que parecem simplesmente um conjunto de movimentos decorados, executados
um atrás do outro, é algo que ocorre de maneira geral com as ginastas
atuais... em outras palavras: as ginastas atuais executam
muito e sentem pouco.
Neste
sentido, pude ver na Daiane um grande diferencial, frente à “mesmice”
atual da ginástica. Ela é capaz de executar séries de altíssima
dificuldade e, ainda é capaz de associar a isso muita energia, muita
alegria, muita garra, muito amor. Vê-la
em ação no solo é fantástico; em movimentos que muitas das melhores
ginastas têm grande dificuldade para executar (como o duplo-mortal
estendido, ou a tripla-pirueta) a Daiane se sobressai: executa com grande
velocidade, e aterriza de maneira que chegam a parecer fáceis (?!) todas
as suas evoluções pelo ar.
A
oportunidade de ver a Daiane ao vivo era mesmo imperdível, de maneira que
não hesitei em dar um jeito de ir a Curitiba, junto com a (recém-formada)
equipe do Ginásticas.com.
Chegamos cedo ao local da competição e, logo de cara, nos
deparamos com ginastas americanas e ucranianas se aquecendo nos aparelhos.
Foi
realmente impressionante. Nunca houvera acompanhado, não tão de perto,
um evento com atletas de tão alto nível. Durante o aquecimento, já era
possível observar toda a qualidade daquelas ginastas: possuíam uma
flexibilidade fora do comum, se contorciam de todas as maneiras possíveis
sem aparentar nenhum esforço; demonstravam força e resistência, fazendo
séries e séries de exercícios extremamente difíceis, como se
estivessem num dia de treino normal, não como se a competição fosse
ocorrer em 15 ou 20 minutos. Às portas da arena, observando tudo isso, três
caras de queixo no chão quase se esquecem que tinham que tirar fotos,
fazer filmagens e tentar conseguir entrevistas com técnicos e ginastas.
Éramos nós mesmos!
Logo
em seguida, a seleção brasileira, que até então não havia chegado,
entrou pela porta do clube, e as ginastas se dirigiram ao local de
aquecimento, passando próximas a nós. Não pude acreditar ao ver a
Daiane entre elas; dentro de minutos, iria mesmo poder vê-la de perto,
aquecendo-se, competindo, e (quem sabe?) ganhando!!!
Então,
fomos até a arquibancada e escolhemos o melhor lugar possível para
acompanhar a movimentação. Filmamos e tiramos algumas fotos durante o
aquecimento, enquanto o público chegava, e a competição logo começou.
As expectativas foram confirmadas; as ginastas eram
mesmo muito boas e vimos ótimas rotinas em todos os aparelhos, assim como
algumas boas quedas, que a televisão não gosta muito de mostrar. Estava
ansioso por finalmente ver a Daiane ao vivo no solo, onde ela normalmente
faz as suas melhores apresentações e acaba conquistando todo o público.
Afinal,
chegou a vez dela. Vibrei só de imaginar como seria, torcia para que ela
fosse tão empolgante, tão viva quanto
nos vídeos que costumo ver e rever das suas apresentações desde
Winnipeg. A música da série de solo tem sido sempre a mesma desde 1999,
mas as seqüências de tumbling (as seqüências de saltos executadas nas
diagonais) tem evoluído desde então, estão cada vez melhores.
Mas,
infelizmente, certas coisas não são pra ser mesmo...
Aquele
não foi um bom dia para a Daiane. Não tinha ido bem no salto sobre o
cavalo e, no solo, logo de início, na sua primeira seqüência de tumbling, que pena... a Daiane acabou tendo problemas e aterrisou
para fora do solo, o que acabou com as suas chances de vitória. Ainda
assim, não desisti: queria acreditar que ela ainda poderia vencer e
vibrei e torci apaixonadamente até o fim da música.
Apesar
deste final aparentemente triste, não me senti mal pelo fato de ela não
ter vencido; pelo contrário, me sentia gratificado por tê-la visto tão
de perto, voando daquele jeito pelo ar. Ela é mesmo diferente; me
transmitiu uma alegria tão boa que a vitória passou a ser, simplesmente,
um mero detalhe.
Li, em algum lugar, um comentário
sobre o jogador de futebol Garrincha, na época em que ele era chamado de
“a
Alegria do Povo”. Dizia
assim: “Devia ser proibido jogar tão bonito”.
Deste
comentário, tiro a minha impressão final sobre ver a Daiane ao vivo:
Devia
ser proibido pular tão bonito.
Imagens
Fotográficas:
:Por
Denis R. Patrocinio e Nelson Antoine - Staff Ginásticas.com












|