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Obstinação 01
- Shun Fujimoto
Por Marcelo
Miyashiro - Staff Ginásticas.com
"...Eu
decidi que tinha que esquecer a dor."
Sempre procurei ler sobre a
vida de pessoas que se destacaram de alguma maneira em
diversas áreas - gosto bastante de Leonardo da Vinci,
Fernando Pessoa, Bruce Lee, etc. - e tinha a
curiosidade de entender o que fazia com que o nome "Nadia
Comaneci" exercesse tanto fascínio até os dias
atuais. Um dia, procurava na internet informações sobre esta
ginasta mas, por acaso acabei me deparando com um episódio
espetacular, ocorrido nos Jogos Olímpicos de 1976, em que
Nadia tornou-se mundialmente conhecida.
Tal episódio ocorreu durante a
competição masculina por equipes de Ginástica Artística.
Naquele ano eram fortes os
favoritismos da União Soviética e do Japão ao título. O
Japão tinha um histórico de sucesso nas quatro Olimpíadas
anteriores, havia ganho todos os títulos por equipes desde
1960, em Roma, e lutava pelo seu quinto título consecutivo. A
União Soviética, por outro lado, contava com uma equipe
extremamente forte e com a presença de Nikolai Andrianov, o
ginasta que se tornaria nos Jogos Olímpicos seguintes (em
Moscou, 1980) o homem com o maior número de medalhas em Olimpíadas,
com 15 medalhas.
Todo este cenário parecia
antecipar uma grande disputa que, de fato, aconteceu. O que
talvez, ninguém poderia esperar é que um suposto coadjuvante
naquela competição se tornasse o protagonista de um grande
feito.
O
ginasta Shun Fujimoto certamente sabia da importância de cada
centésimo na pontuação para que a vitória do Japão fosse
possível, e determinou-se a cumprir o seu papel na equipe.
Durante a sua apresentação no solo, teve sérios problemas,
uma fratura na patela (região do joelho), quando ainda
finalizava a sua série. A fim de manter a auto-confiança da
equipe, e de manter todos concentrados na competição,
escondeu a sua lesão e continuou a competir como se nada
houvesse acontecido.
O aparelho seguinte foi o
cavalo com alças, e Fujimoto obteve ainda uma ótima
nota, 9,5. Este aparelho, em relação aos demais, é o
que apresenta os menores problemas de impacto sobre as pernas
no momento da aterrisagem, e isso provavelmente contribuiu
para que o ginasta não agravasse ainda mais a sua lesão, e
ainda a mantivesse despercebida de todos. Apesar disto, as
dificuldades de competir naquelas condições não devem ter
sido nem um pouco desprezíveis... Executar uma boa série
sobre o cavalo com alças, em nível olímpico (!!!),
já é um feito para qualquer ginasta! Imagine então executá-la
com uma perna fraturada!
Como se não bastasse, o maior
desafio ainda estava por vir. A próxima execução seria nas
argolas... aparelho que, ao contrário do cavalo com alças
apresentaria sérios problemas no final da série, com o
retorno ao solo, em que a perna do ginasta sofreria um impacto
muito grande.
Fico imaginando o que passava
pela cabeça deste homem naqueles momentos. Ele sabia que uma
aterrisagem sobre uma perna fraturada agravaria ainda mais a
sua lesão. Ele sabia também (ou, pelo menos, podia imaginar)
a dor absurdamente intensa que sentiria no momento do
impacto com o solo. Assim, por este lado,
desistir seria uma atitude correta e perfeitamente
justificada.
Por outro lado,
ele também tinha consciência de que sua equipe lutava pelo
quinto título consecutivo do Japão em Jogos Olímpicos.
Vencer era uma questão de honra nacional, para
um povo que colocava a honra como um dos seus maiores valores.
Além disso, Fujimoto, como qualquer outro atleta de alto nível,
provavelmente teve de sacrificar muitas coisas em sua vida
para poder chegar a ter a oportunidade - única para
muitos atletas - de competir em uma final olímpica. Como
desperdiçá-la após tanto esforço?
Finalmente, as argolas eram,
simplesmente, o melhor aparelho de Fujimoto. E ele já
havia conseguido se superar anteriormente sobre o cavalo com
alças.
Com tantas coisas em jogo, não
havia mesmo como desistir!
Afinal, Fujimoto decidiu. Subiu
às argolas e, num momento em que deve ter sido tomado por
inspiração, determinação e coragem absolutamente fabulosos,
executou uma série excelente, praticamente sem erros... mas
ainda restava a aterrisagem. Ao largar as argolas, o
retorno ao solo foi fulminante: vindo de uma altura de 2,50 m,
em velocidade, caindo com todo o peso do seu corpo sobre uma
perna fraturada(!!!)... Fujimoto finalmente concluía a sua série,
conseguindo ainda se manter por um breve instante parado, de pé,
antes de desabar sobre os braços do técnico da seleção
japonesa.
A contração de toda a face,
com os dentes cerrados e os olhos cheios de lágrimas eram o
sinal mais evidente de toda a dor que Fujimoto sentiu naqueles
instantes. "Como ele conseguiu executar todos aqueles
movimentos e ainda se manter em pé sem desabar nem gritar
com toda a dor, é algo que está além da minha compreensão",
disse um dos médicos que o atendeu logo em seguida.
Com todo o seu esforço,
Fujimoto conseguiu a melhor nota de sua vida, 9,7. Em
seguida, foi obrigado a desistir da competição, deixando a
equipe japonesa com um desfalque, mas inspirada para buscar o
ouro.
Os soviéticos, no entanto, não
estavam nada dispostos a entregar o título para o Japão e,
nos momentos finais da competição eram eles que se
encontravam à frente no placar. Os japoneses terminavam a sua
participação apresentando-se sobre a barra fixa e Mitsuo
Tsukahara - um dos grandes nomes da seleção japonesa na época
- foi o último ginasta do Japão a executar sua série.
Tsukahara precisava conseguir
uma nota igual ou superior a 9,5 para garantir o título para
o Japão. Fazendo valer todo o esforço de Fujimoto e da
equipe japonesa, superou todas as expectativas e conseguiu um 9,9!!!
Afinal os japoneses conquistavam seu quinto título olímpico
consecutivo, com a pontuação final de 576,85,
contra 576,45 da União Soviética!!! Foi a
decisão por equipes na ginástica artística em que houve a menor
diferença entre 1º e 2º colocados em toda a história
dos Jogos Olímpicos!!!
Fico
imaginando... com uma vitória por uma diferença tão
pequena, o que teria sido do Japão se Fujimoto não houvesse
competido? A União Soviética teria ganho o título?...
De qualquer maneira, a vitória
foi dos japoneses e, especialmente do obstinado Fujimoto, que
disse ao ser entrevistado após a conquista do título:
"Sim, a dor atravessou
o meu corpo como uma faca. Ela trouxe lágrimas aos meus
olhos. Mas agora eu tenho a medalha de ouro...e a dor se
foi."
No momento da
subida ao pódio para a entrega das medalhas, Fujimoto recusou
qualquer ajuda. Para alguém que executou duas excelentes
rotinas com uma fratura na perna, caminhar até o pódio deve
ter sido mesmo o mais simples!
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