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Artigo
23 - Dom Bosco: A Mágica triunfa sobre a Lógica
Por
Marcelo
Miyashiro - Bacharelando em Educação Física - USP -
2004.
"No
começo do jogo, depois da saraivada inicial de dribles,
os russos ainda pensaram que fosse um problema de marcação.
Começaram a gritar e a discutir entre si. Mas, se
acertaram a marcação, não se ficou sabendo, porque
Garrincha continuou a driblá-los do mesmo jeito. Os
russos apelaram para a violência, mas apenas uma vez o
acertaram feio. Houve um lance em que, depois de fazer um
russo cair, Garrincha pôs o pé sobre a bola e, de costas
para o adversário, estendeu-lhe a mão para que se
levantasse. E seguiu com a jogada, como se fosse a coisa
mais natural do mundo. No Rio, grudado ao rádio, com lágrimas
nos olhos, o botafoguense Paulo Mendes Campos, que sempre
considerara Garrincha um deus entre os mortais, via enfim
que sua fé não fora um delírio: Garrincha era a prova
de que ‘a mágica pode ganhar da lógica’ ” (Castro
Ruy. In: Estrela Solitária: Um brasileiro chamado
Garrincha. Cia. Das Letras, 1999).
Que
‘mágica’ existiria em Garrincha? E qual ‘lógica’
ela seria capaz de vencer? Penso que o apelo mais
fascinante do chamado futebol-arte – o qual
certamente encontra em Garrincha uma das suas maiores
expressões – estivesse
em mostrar, em dribles desconcertantes e jogadas geniais,
como o talento, a emoção, o ímpeto e a irracionalidade
podiam triunfar de maneira surpreendente e inesperada
sobre a ciência, o formalismo e o comedimento do futebol
europeu.
Aparentemente,
os tempos do futebol-arte passaram e, por razões as quais
eu mesmo não compreendo muito bem, parece que não apenas
no futebol, mas em todo o fenômeno esporte, o paradigma
atual é a prevalência da necessidade de resultados sobre
aquela de promover um bom espetáculo. Assim, vencer
competições e conseguir títulos passam a ser os
principais objetivos, em detrimento do modo pelo qual eles são atingidos.
Não
sou um aficcionado por futebol. Conto nos dedos de uma mão
quantas vezes me aventurei a jogar. Se cito Garrincha e o
futebol-arte, é porque os considero uma feliz exceção
no futebol, essa sim que admiro grandemente, por todos os
sentimentos aos quais ela me remete. Afinal, se a “mágica
pode ganhar da lógica”,
tudo o que poderia, à primeira vista, ser
considerado impossível, sonhos e delírios irrealizáveis,
não poderia tornar-se real e concreto, de “maneira
inesperada e surpreendente”?
Em
verdade, bem mais que o futebol, aprecio a ginástica olímpica,
tendo me aventurado de cabeça pra baixo mais vezes do que
consigo recordar. Para a ginástica, penso que a “mágica”
também existe, e tem nome: Daiane dos Santos. Essa garota certamente não é uma ginasta comum.
Ela é brasileira. Ela é negra. Ela foi pobre. Ela começou
tarde para a ginástica, aos 11 anos...
...e
ela possui um talento formidável. Ver Daiane ao vivo é
uma afronta, um ultraje. Com velocidade e potência incríveis,
ela parece provar que Newton estava errado. Tudo que sobe
tem de descer...Daiane parece só conhecer metade da história:
sobe, sobe e sobe! Quando finalmente volta ao solo, como
se haver rasgado o ar nas alturas não fosse suficiente,
exibe um sorriso, um gingado, um jeito de se mover alegre,
bonito e contagiante, que alcança o coração, desperta o
entusiasmo de quem a observa e se perde de si por breves
instantes. Isso é mesmo um ultraje, um insulto aos
europeus, asiáticos, americanos com sua ginástica
extremamente técnica, tradicional e sem graça, cheia de
lógica e carente de mágica.
Minha
admiração por heróis como Garrincha e Daiane dos Santos
fez ocorrer-me a idéia de existirem outros como eles,
talvez em lugares em que a mídia não estivesse. Havia
ouvido falar de um lugar na zona leste da cidade de São
Paulo, onde se ensinava ginástica olímpica a crianças
carentes. Decidi que seria interessante visitar tal lugar
para a realização desse trabalho de faculdade, com a
intenção de observar como as aulas eram desenvolvidas e
como se davam as relações entre as pessoas (alunos,
professores, etc.) durante as atividades.
Enfim,
numa tarde de
sexta-feira, cheguei à Obra Social Dom Bosco, onde são
promovidas várias atividades voltadas à educação de
crianças e adolescentes, oficinas de vários tipos,
cursos profissionalizantes e atividades físicas, entre
elas a ginástica olímpica. Apresentei-me na entrada e
logo fui conduzido à sala onde se encontravam os
aparelhos.
À
minha frente, encontrei um grande espaço, com um solo de
ginástica, um espelho e os aparelhos em volta, argolas,
barra fixa e barras paralelas, cavalo com arções, barras
assimétricas, trampolins
para o salto sobre o cavalo e colchões. Ao fundo do ginásio,
num plano mais rebaixado, após um grande degrau, havia um
espaço com uma cama elástica e as traves de equilíbrio,
além de um espaldar. Encontrar um espaço com todos os
aparelhos ginásticos não é muito comum no Brasil, menos
ainda em locais públicos e nos quais a ginástica é
voltada para a educação. Os poucos lugares com boa
estrutura para a prática muitas vezes são particulares,
como em alguns clubes, colégios e academias, e são
voltados ao treinamento para competições. Assim, fiquei
bastante surpreso ao deparar-me com um lugar com essas
características, e procurei saber qual seria a explicação
para tal sucesso na implementação da ginástica no Dom
Bosco. Talvez por não haver insistido o suficiente, ou
por não haver perguntado da maneira correta, não obtive
respostas exatas. Soube apenas, de maneira vaga, que tudo
havia começado aproximadamente dez anos antes, em uma
quadra comum de cimento,
com o empenho dos profissionais ali presentes,
que foram conseguindo captar recursos e melhoraram
pouco a pouco as
condições do local.
Felizmente,
havia chegado em bom horário, pois uma das professoras se
encontrava sentada no solo, orientando as alunas para a
aula que começaria em seguida. Curiosamente, a aula não
seria de ginástica olímpica, mas de ginástica rítmica.
O motivo eram os recentes cortes de funcionários
ocorridos por falta de recursos. A professora responsável
pela aula havia sido contratada há pouco tempo, e não
possuía muita experiência com ginástica olímpica,
podendo apenas orientar as atividades com ginástica rítmica.
De qualquer forma a aula aconteceria e, após explicar o
meu trabalho à professora, quando pensei em sentar-me em
algum canto para iniciar a observação, fui surpreendido
com a sugestão de que eu participasse da aula e ajudasse
a ensinar os movimentos às meninas! Um tanto desnorteado,
e percebendo que a falta de recursos e de profissionais
trazia seus problemas, aceitei prontamente e decidi auxiliá-la
durante a aula. Se a não interferência do pesquisador no
objeto de estudo for um requisito absolutamente imprescindível
para a pesquisa, acabarei concluindo que todo esse
trabalho foi um fracasso. Assim, admitirei que o fato de
haver aprendido muito nos vários dias em que estive na
Obra deva assegurar o sucesso de todas as minhas observações.
Para
a primeira aula daquela tarde estavam presentes meninas,
aproximadamente na faixa etária de 9 a 12 anos. Naquele
dia, as atividades seriam todas no solo, com a prática de
acrobacias. O solo foi dividido em estações, em cada uma
das quais haveria a prática de um tipo de movimento. Eu
fiquei encarregado de auxiliar as crianças, uma a uma, a
executarem reversões à frente (veja figura ....) em
uma das estações.
As meninas vinham e eu simplesmente deveria
garantir a segurança delas, ou corrigir erros de postura
e técnica. Após cada execução, e durante toda a aula,
repeti frases do tipo:
- Estica esse pé!
- Estica, levanta o braço! Deixa os braços
‘colados’ na orelha!
- Empurra o chão!
- Levanta a cabeça!
Tudo
isso enquanto apoiava as meninas em alguns trechos do
movimento, para facilitar a execução, e vez ou outra,
com alguma pequena chamando:
- Tio, tio! Olha agora, vê se tá certo! Olha,
tio!
Às
vezes era necessário ‘desafiar’,
de maneira bem humorada, algumas meninas, não tão
dispostas a fazerem os exercícios:
- Acho que eu sei por que você não faz!
- Por quê?
- Porque você não consegue!
- Consigo sim, olha! Viu?
Até
aquele momento, nunca havia tido nenhuma experiência com
aulas, fiquei um pouco receoso no início, mas logo
senti-me mais à vontade, e parece ter havido o mesmo com
as crianças em relação a mim. Percebi o tempo passar
rapidamente, e logo vi que orientar e ajudar podia ser
quase tão cansativo quanto praticar
ginástica olímpica. Ao final da aula, uma cena que se
repetiria nos outros dias acontecia pela primeira vez:
- Tio, professor, você vai voltar de novo?
O
“tio”, mais cansado do que esperaria ficar, dava uma
risada de satisfação e passava a mão na cabeça da
menina, despedindo-se.
Nos
dias que se sucederam, estive no Dom Bosco no período da
manhã, durante o qual haveria treinos também para os
meninos, esses um pouco mais velhos, de idade variando de
10 a 18 anos. Durante o treino auxiliei os garotos nas
argolas, e novamente buscava corrigir erros de técnica e
postura. Dessa vez, a tarefa não pareceu tão fácil
pois, apesar de saber como o movimento deveria ser
executado, era difícil transmitir o que eu desejava de
maneira clara aos alunos. Além disso, os meninos pareciam
esperar resultados mais imediatos das orientações sobre
o desempenho e, quando não percebiam melhora instantânea
do movimento que executavam, logo ficavam desestimulados e
prestavam pouca atenção ao “tio” falando. Logo
percebi que só os “conquistaria” se tivesse mais
tempo disponível para continuar insistindo. Fiquei um
pouco desanimado e pensei que ainda precisava aprender
muito para tornar-me um bom profissional.
Em
alguns dias, algumas crianças apareciam sem o uniforme
usado para os treinos, e a professora não os deixava
treinar. Algumas resmungavam e insistiam, argumentavam que
a roupa estava lavando, mas acabavam assistindo o treino
de algum canto, um tanto inconformadas. Pude assim
perceber que eles gostavam de treinar, apesar de não
terem ainda muita responsabilidade para ao menos garantir
o próprio uniforme em condições todos os dias. Nas
quintas-feiras, não havia treinos, e todos deveriam vir
para auxiliar na limpeza do ginásio. Logicamente, varrer
o solo e tirar poeira dos aparelhos não era a atividade
preferida das crianças, e incontáveis vezes pude ver de
maneira engraçada os meninos esperando que a professora
perdesse a atenção sobre eles, para aproveitar e fazer
um salto mortal sobre os colchões ou brincar na cama elástica.
Sem demora, a
professora os reprimia, com uma voz que parecia transmitir
um sentimento de certo cansaço e ternura, como uma mãe
que já houvesse chamado a atenção dos filhos travessos
milhões de vezes anteriormente e, resignada, soubesse que
ainda o faria muitas e muitas vezes.
Nesses
momentos, pensei que a educação é mesmo um
processo trabalhoso, que demanda paciência, disposição
e boa vontade, e que o trabalho desenvolvido naquele lugar
era importante porque possibilitava àquelas crianças, ao
compreenderem atitudes simples como cuidar de um uniforme
e limpar o ginásio, aprender valores fundamentais à vida
adulta.
No
último dia, enquanto voltava para casa sob a garoa
pensando em tudo que havia acontecido, dei-me conta de que
não encontrara tudo o que esperava inicialmente, futuras
“Daiane dos Santos” ou “Garrinchas” da ginástica.
Nem por isso saí daquele lugar menos satisfeito. Tive a
certeza de que amar a ginástica e ser capaz de praticá-la
e usá-la em benefício da saúde e da educação das
pessoas é um grande ato heróico. A mágica da boa
vontade podia vencer a lógica da desigualdade.
Parabéns
a todos da Obra Social Dom Bosco.
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